Constelar é Viver

O aborto na Constelação Familiar

Hoje vamos falar de um assunto profundo que normalmente aparece nas constelações familiares: O aborto. Você que é facilitador de constelação familiar, ou mesmo pai ou mãe que passou por essa questão, espero que este conteúdo te ajude a encontrar alguns caminhos e algumas respostas.

Na constelação familiar conseguimos perceber o impacto de um aborto na vida de um pai e de uma mãe e, mesmo quando esse aborto é mantido em segredo, ele também impacta na vida dos filhos desses pais.Normalmente quando perguntamos, durante a constelação, se a mãe ou seu pai do consulente já fez um aborto e essa pessoa não tem essa informação, é provável que ela possa levantar algumas questões como: “Será que realmente minha mãe fez um aborto?”, “Será que meu pai realmente tem essa história?”, “Ele teve um relacionamento antes da minha mãe?” ou “Teve uma traição no relacionamento?”.
Mesmo que a pessoa tenha dúvidas sobre o assunto, a constelação familiar consegue nos mostrar através dos seus movimentos, indicando esses fatores que são tão importantes. Ainda sim, é indicado que a pessoa que está desenvolvendo a constelação pesquise e pergunte para sua mãe e para o seu pai se possível. Há uma conexão profunda entre os irmãos e essa conexão é sentida. Então é de muita importância que a pessoa saiba se ela tem um irmão fora, antes, ou depois do casamento de seus pais, que possa ter sido mantido em segredo.

Muitas vezes é possível que a pessoa que está sendo consultada tenha a sensação de fraqueza, de ser excluído, de não ser visto e ter a sensação onde ninguém reconhece ou traz um olhar de valor e de respeito para seus feitos, dentro do seu trabalho ou do relacionamento. Em alguns casos é possível até mesmo que sinta uma sensação de morte. Quando o aborto vem de 3, 4 gerações passadas, onde os bisavós, avós e os pais precisaram fazer muitos abortos por algum vínculo profundo dentro da história dessa família, o filho, quando ele vem e se mantém vivo, fica conectado a essas sensações e esses sentimentos que aconteceram com essas crianças.

A sensação de querer se matar pode acompanhar pessoas que afirmam não saber da onde vem essa vontade e que não sentem que tem a ver com a sua história. É importante saber que os abortos que são cometidos dentro da família tem uma consequência e uma força dentro da alma familiar. Os abortos espontâneos tem uma outra forma de ser visto dentro da constelação, mas ambos têm importância, porém alguns são diferentes uns dos outros.
Um caso interessante que aconteceu com uma de minhas clientes, foi quando ela me contou que ela se via se jogando da janela e concretizando esse ato. Ao abrirmos sua constelação familiar, pudemos identificar que ela estava envolvida com os abortos que a mãe tinha cometido. Ela estava conectada à essas crianças que não puderam nascer. Tanto da mãe quanto de sua avó e também de sua bisavó. Descobrimos que o bisavô dela tinha se suicidado e isso foi um aspecto muito importante dentro da vida dessa família.

Então, às vezes, se o consulente possui essa vontade de deixar de viver, essa sensação pode estar ligada a algum irmãozinho que não pode vir a vida. Ou quando há uma sensação de dívida, onde a pessoa sente que não merece ser feliz, também é uma forma de honrar esse irmão, ou irmã. Ao estar conectado à essas crianças que não puderam nascer, é como se inconscientemente a pessoa que está sendo consultada dissesse ao seu irmão: “você não pôde vir e eu também deixo de viver por você”.
Para o casal o assunto do aborto de um filho é profundo. Temos alguns casos onde a mulher comete aborto e não informa seu parceiro e ele acaba sentindo isso de alguma forma. Assim essa relação começa a mudar e normalmente rompre. Eu vejo muitos casos de relacionamento onde acontece um aborto e o casal não consegue chorar por esse acontecimento juntos, ou mesmo tocar na profundidade dessa dor. Com isso eles se separam pois não puderam continuar a vida de alguma forma. Porém, também já observei alguns casos de casais que, quando conseguem chorar juntos e ter um profundo respeito por essa questão, eles conseguem de alguma maneira tocar num amor maior. Quando eles conseguem tocar esse amor maior há uma força nessa relação que é fora do comum.

Quero dizer aqui também que essas questões do aborto, olhando para as questões arcaicas dentro do nosso inconsciente coletivo, ou mesmo na nossa alma familiar, se olharmos para a origem das questões tribais e comunitárias, pois a consciência ancestral trabalha com a comunidade, com a convivência, com o compartilhar, – um pouco diferente da vivência que temos hoje com essa estrutura patriarcal – essa consciência tribal já olhavam para essas questões do aborto e já sabiam que muitas crianças que não podiam vir tinha um impacto profundo.

Ao olharmos aqui para o brasil, para a nossa história com os povos de origem africana, como o povo Yorubá, podemos perceber que eles já olhavam para essa questão do aborto. As festas e cerimônias em homenagem às crianças que são realizadas nesse contingente religioso, tem a ver com crianças que não conseguiram nascer. É uma forma muito expressiva de olhar para os abortos. Então é interessante estudarmos essa influência que temos aqui no brasil, que muitas vezes muitos facilitadores deixam de estudar por uma restrição, ainda, à espiritualidade.
Esses povos também acreditavam que os gêmeos tinham propriedades divinas e mágicas. Quando um casal tinha gêmeos, essa família, de alguma maneira, tinha uma conexão diferente com a espiritualidade e ancestralidade. Podemos perceber isso até hoje, quando fazemos os estudos dos gêmeos, do gêmeo remanecescente e todos esses processos.
Se olharmos um pouco mais para trás, para a nossa consciência arcaica, a consciência das tribos, das comunidades, do compartilhar e do conviver, nós percebemos que eles têm um contato direto com a natureza e, através dessa observação, eles criaram esses rituais que honram e dão um lugar para as histórias dessas crianças, que são tão profundas.
Principalmente para o pai e a mãe é muito importante darmos lugar a essas histórias. Dar espaço para que esses pais possam falar sobre esse assunto, muitas vezes traz cura para essa família. Quando o consulente consegue olhar para esses irmãozinhos que não puderam vir, para essas crianças que ainda estão conectadas mas não dão lugar, quando realmente consegue olhar para elas com dignidade e respeito é um processo altamente curador.
As vozes de suicídio, a sensação de não ser visto, ou mesmo quando a pessoa que está sendo consultada sente que vive por duas pessoas, que não pode ser feliz sozinha, ou que precisa ser feliz com alguém, esse alguém pode ser, às vezes, um irmão ou irmã que não veio, mas que ainda está conectado, sendo honrado porque quer dar um lugar para ele dentro da família.
Às vezes o consulente faz isso até pela sua mãe ou seu pai. A pessoa percebe que sua mãe ficou triste com o que aconteceu e diz: “mamãe, por você eu me conecto com esse irmão e por você eu vou viver a vida do meu irmão para que você fique feliz”, ou até mesmo algumas histórias onde o pai desejava um filho homem e esse casal tem o primeiro filho homem, mas natimorto. O próximo filho nasce uma menina e ela diz: “papai, por você eu vou viver e vou ser esse menino”, e então fica altamente conectada para trazer cura a esses pais que não conseguiram olhar de alguma maneira para essa história.
Então fica aqui minha dica para que a gente olhe mais para essa consciência arcaica que contém inúmeras histórias e consciências que podemos estar observando com mais atenção. Antigas receitas que podem ainda ser vivenciadas como atuais, ou como viver essas antigas receitas de uma maneira contemporânea.

sobre o autor

Gil Mori

Criador da página “Os círculos do amor” escreve para blogs sobre como podemos mudar nossas relações de forma simples. Hoje atua com os atendimentos individuais no Espaço Viver com Arte em São Paulo capital e com oficinas, workshops e treinamento em todo o Brasil.

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